Rio de Janeiro: Caldeirão de beleza

Rio de Janeiro: Caldeirão de beleza
O que faz do Rio o mercado mais novidadeiro da indústria cosmética brasileira?


Se existe um local no Brasil onde a máxima de que "a indústria cosmética é movida a novidades (ou inovação)" atinge seu ponto mais alto, esse local é o Rio de Janeiro. Nenhum lugar no País gera tantas inovações e modismos de beleza, em intervalos tão curtos de tempo e com incrível rapidez quanto a região metropolitana da capital fluminense. Ali se encontra a terceira maior base de indústrias do mercado de beleza no Brasil, com 225 companhias legalizadas, de acordo com a ANVISA. Embora seja menos do que Minas Gerais, o estado contempla um grande número de companhias relevantes do mercado, incluindo multinacionais como L'Oréal, Alfaparf, Pierre Fabre, Puig, e locais como Granado, Niely (cujas operações industriais ainda operam de forma independente da L'Oréal), Embelleze, Lola, Yenzah e Vizcaya, além de outras dezenas de empresas de diferentes portes, canais e categorias de produtos. O Rio também serve de base industrial para importantes fornecedores da indústria, como a casa de fragrâncias IFF e a fabricante de matérias-primas Lubrizol. 

Antes que o leitor questione. Sim, São Paulo concentra a maior base industrial do País e, naturalmente, as empresas paulistas lançam muito mais produtos e inovações no seu conjunto. Mas, tenha em perspectiva a originalidade e o arrojo trazido ao mercado pela indústria do Rio, por meio de novos conceitos e propostas baseadas em tendências que ainda não foram captadas por indústrias de outras praças e a leitura fará bastante sentido para você. 
Mas o que faz do Rio um mercado tão rápido na hora de lançar novas modas na indústria cosmética?

Primeiro, é preciso entender que o Rio de Janeiro (e nesse caso, especialmente a cidade do Rio) é um lugar diferente de tudo o que se tem no Brasil. Num País continental, cada região tem suas peculiaridades, tradições e linguagem próprias. É óbvio também que isso leva a situações de diversidade e desigualdades gritantes entre e dentro dessas regiões. Mas o Rio condensa numa área bastante pequena todo esse caldeirão de diversidade e desigualdade. É como se todo o Brasil se misturasse ali. E misturasse no sentido mais literal mesmo. Ao contrário de praças como São Paulo, geograficamente mais espalhadas e fechadas em núcleos - o que de alguma maneira faz com que os desiguais se misturem menos - no Rio, a desigualdade se encontra o tempo todo, especialmente na praia, onde não se distingue quem é quem. "Tem a garotinha da Zona Sul e tem a garotinha que vai acordar cedo pegar o ônibus lotado. Tá todo mundo ali falando a mesma língua", conta Renata Lima, gerente de P&D da Lola Cosmetics, uma das mais inovadoras e cariocas marcas do mercado. 

Por mais que pareça um contrassenso, isso ajuda a fazer do Rio um universo muito, mas muito particular. Quase que um país dentro do Brasil. Como segue sendo o segundo mais relevante estado da Federação em termos econômicos e concentra boa parte da formação da história e do intelecto nacional, o impacto do que acontece ali sobre o restante do País é gigantesco, especialmente em questões culturais e de comportamento, como é o caso das relacionadas à beleza.

A miscigenação cultural e econômica do Rio é um dos traços mais peculiares da cidade e fonte importante da capacidade da indústria local de encontrar e ler mais rapidamente novas manifestações de beleza, que podem ser convertidas em produtos cosméticos. Logo atrás do Leblon, com seu alto poder aquisitivo, está o Morro do Vidigal, que é um polo de tendências muito forte. A desigualdade do Rio é muito grande e ao mesmo tempo muito misturada. Essa movimentação de classes gera um círculo ao mesmo tempo virtuoso e vicioso, como explica Felipe Soares, um experimentado executivo do mercado e que recentemente assumiu a direção comercial da Lola. "A pessoa que é do Vidigal desce para o Leblon, vê ali alguém usando alguma coisa que ela acha bacana e vai tentar interpretar aquele estilo dentro das suas possibilidades. E, depois, essa interpretação feita no Vidigal desce o morro e ganha o asfalto novamente", diz. "O morro e o asfalto, que se misturam na praia, criam um caldeirão cultural muito rico. Um retroalimenta o outro, cada um do seu jeito", corrobora Marcelo Chrispim, um dos fundadores e diretor Comercial da Yenzah.

Com toda essa gente junta e misturada, os bons observadores do mercado conseguem perceber e entender mais rapidamente o que se passa entre os diferentes grupos de consumidores da cidade, as demandas e invenções que formam um caldeirão cultural que conversa muito com o Brasil todo. Apesar de ser mais evidente na zona sul, até pela questão geográfica (a praia, o asfalto e o morro se sucedem), essa mistura se dá em toda a cidade. Na região central, no bairro da Lapa, por exemplo, que mistura jovens de diferentes classes sociais e perfis num dos pontos mais agitados da vida noturna carioca; ou na tradicional Tijuca, considerada a zona sul da pobre zona norte, onde se encontram alguns dos bairros de comércio mais vivo e intenso da cidade como Madureira e o Meier. Mesmo na planejada Barra da Tijuca, com suas avenidas amplas e grandes blocos, basta andar um pouco mais a partir da Avenida das Américas para se misturar a uma realidade diferente das dos condomínios de luxo que marcam o bairro da zona oeste. 

"Isso gera o convívio. E essa mistura, goste ou não, produz algo diferente", acredita Philippe de Carvalho, executivo franco-carioca que está à frente da operação de dermocosméticos da francesa Pierre Fabre no Brasil. Com longa vivência internacional no setor de beleza, Philippe viu bem o poder transformador de viver nesse caldeirão quando atuava como diretor de uma marca internacional de produtos para os cabelos, em meados da década passada. "Quando eu trabalhava nesta categoria, o padrão era o liso. De repente chegaram algumas marcas falando de cachos, com um discurso muito brasileiro e muito adequado. Acho interessante que muitas das empresas da baixada fluminense souberam capturar nesse caldeirão necessidades que nem sempre estão expostas. Capturar o que acontece na zona norte, na zona oeste e em outras áreas menos glamourizadas é algo muito legal de quem está no Rio, onde acontece um encontro de culturas, peles e cabelos diferentes", acredita.

A proximidade ao que acontece em todos os cantos e com todas as diferentes tribos, classes e tipos da cidade, além de toda a movimentação cultural que isso gera, é um dos motivos para a agilidade das empresas fluminenses na indústria de cosméticos. Mas essa velocidade para ir ao mercado não seria possível sem outra característica local: o jeito carioca de ser e como isso se reflete no modo como ele conduz seus negócios. Em linha gerais, o carioca é mais descontraído e aberto ao diálogo com os outros. Isso abre espaço para que ele seja mais criativo e arrojado. "O carioca é menos estressado e menos encanado. Ele não vai fazer milhões de planilhas e testar todas as possibilidades possíveis de cenários", explica Nádia Armelin. "Por ser mais desencanado e ter essa disposição para o risco é mais ousado e também mais ágil", complementa a executiva paulista, que chegou ao Rio em meados de 2017, como diretora de Marketing da Yenzah, empresa da qual ela é hoje a CEO. De fato, as empresas do Rio são mais rápidas do que a média do Brasil, e, mais importante, têm uma disposição para arriscar com novidades e ver se vai dar certo. Se não der, paciência. Parte para a próxima.

Criada na virada da década por Marcelo e Rodrigo Goecks, dois executivos de longa data da indústria de beleza, com passagens pelas principais escolas do estado, (leia-se Niely, L'Oréal e Embelleze), a Yenzah é outro bom exemplo de uma nova geração de empresas que tem mudado a dinâmica do mercado local, apostando em produtos mais sofisticados, que se valem em diferentes medidas do lifestyle carioca. A Yenzah se vale muito de elementos naturais de todo o mundo em seus produtos - e a natureza é um elemento marcante do Rio -, mas também de aspectos como o Sol e o culto ao corpo, trazendo elementos da academia, como os suplementos Whey Protein para o universo dos cabelos.

Denominação de origem
Por tudo o que já foi dito sobre o seu povo, somada à sua geografia privilegiada, o Rio de Janeiro tem um estilo de vida que outras cidades não têm. E isso agrega valor. "O Rio é uma marca registrada. Tem esse estilo de vida carioca, o ambiente, a praia, a criatividade, essa diversidade... O Rio é despojado, não tem muita formalidade", diz Felipe, da Lola. O executivo acredita que São Paulo também tem suas características, mas elas não formam uma marca. As empresas locais, especialmente as mais novas, passaram a se apropriar mercadologicamente desse lifestyle carioca mais rapidamente. Renata conta que, quando a Lola começou, as embalagens eram todas muito certinhas, não era a cara do Rio. Um dos motivos de sucesso da Lola foi ter se apropriado desse lifestyle carioca muito por meio da linguagem, das gírias, do jeito como as pessoas se comunicam no Rio. 

A Granado, cuja origem remonta a uma farmácia de quase 150 anos lotada no centro do Rio, é outra marca que, ao se renovar, se apropriou do seu heritage. A marca remonta à época do Rio Imperial - foi a farmácia oficial da família real brasileira - e modernizou-se a partir do conceito de sua antiga botica, que permanece aberta no mesmo local, desde 1870. 

A Pierre Fabre é reconhecidamente uma companhia bastante conservadora nos seus processos de desenvolvimento. Mas, isso não impede que a sua marca local, a Darrow, também se valha desse espírito carioca. "Darrow é uma marca brasileira que transporta de maneira simples a necessidade dermatológica. Pouca gente sabe, mas é a terceira marca mais prescrita nesse mercado dermatológico, em volume de prescrição. Estamos trabalhando numa reformulação da marca Darrow. Actine e Doctor são muito conhecida (as duas maiores marcas da Darrow, líderes em antiacne e anticaspa, respectivamente), mas a marca mãe carece de mais notoriedade. Para 2018 estamos programando uma linha Darrow muito mias descolada e, dentro do limite do que é um dermocosmético, torná-la uma marca mais carioca, alegre e includente. E você vai ver exatamente isso quando a nova linha for apresentada", afirma o diretor da Pierre Fabre.

Do subúrbio para a capital
A importância do polo industrial de Nova Iguaçu para o mercado de beleza transcende as fronteiras do Rio. Ali nasceram muitas das empresas que movimentaram o mercado com o lançamento de produtos ousados, com propostas inovadoras e que falavam a língua do povo, quando as grandes empresas não estavam nem aí para qualquer consumidor que não fosse da classe AB. 

As empresas de Nova Iguaçu foram construídas sob uma cultura de produtos bastante popularesca, não de mass market como as empresas multinacionais, mas voltada ao povão mesmo, que não tinha acesso aos produtos das marcas internacionais nos anos 1980 e por boa parte dos 1990. Após o Plano Real e, mais ainda, a partir de meados dos anos 2000, com o aumento do poder de compra da outrora ?nova classe média?, as consumidoras passaram a buscar produtos de melhor qualidade, que falassem a sua linguagem (que se sofisticou, mas não rompeu os vínculos com as suas origens, principalmente no Rio, com a força das comunidades, e ainda assim tivesse um preço adequado). A Niely, então maior empresa fluminense, soube capturar como ninguém essa movimentação e alçou a posição de liderança no mercado de coloração, sua primeira aposta. Mas, na medida em que cresceu demais, a empresa de Daniel de Jesus, embora não tenha perdido a agilidade, ficou naturalmente mais restrita por conta da necessidade de escala. 

Sua rival local, Embelleze, também conseguiu surfar nessas ondas, de um jeito diferente. Com um mix de marcas mais amplo, a empresa da família Serpa sempre teve como característica a velocidade de lançar novos conceitos e produtos rapidamente e em grande quantidade. Muito da influência da Embelleze vem de lançar coisas novas, dê certo ou dê errado. "A Embelleze é reflexo dessa cultura de empreendedorismo do Rio", diz Felipe, da Lola. "Essa sempre foi uma característica da empresa, desde a época do Itamar. Certamente contribuiu para esse modelo de velocidade que se encontra em muitas empresas daqui", lembra Marcelo, da Yenzah.

Na medida em que cresceram, as duas empresas ganharam abrangência nacional e, em alguma medida, romperam com a realidade local. A Embelleze, inclusive, se mudou para a cidade maravilhosa, mantendo apenas sua fábrica na cidade da região metropolitana da capital. Recentemente, a empresa até lançou uma nova marca, a Sou Dessas, inspirada no espírito das cariocas e cuja presença principal se dá nas perfumarias da região metropolitana da cidade maravilhosa. A Niely, comprada pela L'Oréal em 2015, tem hoje sua operação baseada na sede da gigante francesa, embora também ainda mantenha as operações industriais também em Nova Iguaçu. 

A ascensão de novas empresas na cidade do Rio trouxe junto um maior refinamento para a indústria local. E são essas empresas que conseguem capturar de diferentes formas um pouco desse jeito carioca, que puxam o crescimento e servem de referência para o mercado hoje. Com isso, o eixo da indústria de beleza fluminense tem migrado da baixada fluminense para a capital. 

O problema de boa parte das indústrias de Nova Iguaçu e outras cidades da baixada, que permanece sendo um polo produtivo extremamente importante, é que elas não conseguiram acompanhar a evolução e a sofisticação no consumo ansiada pelo povão empoderado. As pessoas, mesmo as de baixa renda, não queriam (e continuam não querendo) usar produtos de aspecto popular. Além de mais exigente, o produto de beleza, inclusive os cremes de tratamento capilar, ganharam status. "O mercado de cosméticos se abriu mais e mais, com muitas marcas internacionais e nacionais acessando o consumidor, que deu um passo a mais que nem todo mundo conseguiu acompanhar", reforça Felipe.

Extrovertida, prática e descolada
A carioca é naturalmente uma mulher mais extrovertida, que tem o seu corpo mais em evidência e para quem tudo funciona. Além de estar sempre disposta a experimentar.

Entretanto, algumas "verdades" do Rio não são tão verdadeiras assim. Especialmente aquelas relacionadas à praia. A empresária da Pello Menos, Regina Jordão, diz que as mulheres cariocas não fazem mais depilação por conta da praia, como muitos profissionais de cidades longe do mar tendem a acreditar. O mesmo se dá com os protetores solares. Apesar de passar o ano inteiro sob um grau altíssimo de exposição aos raios UV, o consumo na cidade não é proporcionalmente muito superior ao de outras regiões, especialmente para os dermocosméticos, que trabalham de forma mais intensa a proteção solar facial diária. 

Quando foi abrir a primeira unidade da Pello Menos, rede de serviços de depilação com mais de 50 lojas, Regina escolheu Copacabana. Afinal, ela acreditava que por estar perto da praia, as mulheres fariam mais depilação. "Foi só depois que descobri que a carioca não se programa pra fazer depilação. E muito menos para ir à praia, que está lá todo dia", lembra. A carioca não gosta de perder tempo. Tudo tem que ser prático e rápido. Ela não vai ficar um tempão fazendo um olho gatinho. Muito do sucesso inicial da Pello Menos, 20 anos atrás, teve a ver com o conceito de uma depilação rápida e sem precisar marcar hora. Com a cera e os procedimentos desenvolvidos pela marca, uma depilação de corpo inteiro, que chegava a levar duas horas, passou a ser feita em 35 minutos. "O negócio começou a crescer e me vi obrigada a abrir outra unidade, porque não estava dando conta de atender todo mundo", comemora Regina, que garante atender, desde sempre, mais de 100 mulheres por dia em cada loja da rede que preside.

Ao mesmo tempo, as meninas do Rio são mais flexíveis e, principalmente, desencanadas. "Ela sai da Progressiva e molha o cabelo", diz Regina, que enxerga uma grande diferença das cariocas para as paulistas, onde a Pello Menos também tem lojas. Para ela, a carioca quer curtir o momento e não se apega a detalhes, a paulista não, é mais certinha. "Um exemplo é a unha. A carioca acaba de fazer a unha e vai pegar o telefone dela, se ela esbarrar na pontinha da unha e der uma borradinha, ela vai falar: 'tá bom, tá bom. Não da para ver não'. Já a paulista, antes de se levantar, vai inspecionar e pedir para tirar um pelinho que ficou ali", brinca. 

Outro traço da consumidora carioca é que ela não é muito fiel às marcas. "Isso faz com que ela também seja muito mais aberta a experimentar novidade,s o que favorece a experimentação de produtos de outras empresas, incluindo as novas", lembra Marcelo, da Yenzah.

Regina, da Pello Menos, também não leva muito em conta o fato de o produto ser ou não fabricado na cidade ou no estado. Mas Luís Carlos Marins, presidente da Ascoferj, associação que reúne as farmácias do Rio de Janeiro, percebe nas lojas do canal farma uma ampliação do mix de produtos, não é só com a introdução de marcas famosas, mas tem muito mais marcas alternativas. "Dessa forma, o varejista pequeno e médio sai da concorrência, de ter que brigar só na questão do preço, já que outros canais têm mais condição de promocionar sua oferta", diz o dirigente.

Trabalhando juntos
Isoladamente, o Rio ainda é um mercado consumidor dos mais importantes para empresas de todo o Brasil. E ainda o mercado mais relevante para boa parte das empresas de lá. Na Yenzah, embora o Rio não represente o maior faturamento, por conta da forte presença da empresa nas grandes redes de farmácias e perfumarias, sua praça local é por onde a marca iniciou seu trabalho de distribuição e onde a marca está, proporcionalmente, mais pulverizada. 
Já para a Lola, o Rio ainda é a praça na qual a marca faz a maior parte das suas vendas. "Estamos diversificando e construindo um negócio de sucesso. Mas isso é com o tempo. O Rio ainda é o nosso mercado número um", afirma Felipe.

O varejo fluminense, especialmente quando consideramos o farma e o especializado, é menos concentrado em grandes redes e mais pulverizado do que de outras praças importantes do País. 

No varejo farmacêutico, o estado tem cerca de 4.500 farmácias, sendo 2.400 delas apenas na cidade do Rio. Considerando a região metropolitana, esse número ultrapassa os 3.000 PDVs. Isso é uma clara demonstração de que, no Rio, as coisas acontecem na capital e no seu entorno. No caso da indústria, essa concentração é ainda mais gritante. Apesar disso, o presidente da Ascoferj destaca o avanço de redes locais com dez lojas no mercado. "A tendência é que eles continuem crescendo no estado. O Rio de Janeiro tem 92 municípios e as grandes redes, incluindo as cariocas Venâncio e D1000 (braço de varejo da distribuidora Profarma), e as gigantes DPSP, Raia Drogasil e Pague Menos, não estão presentes em 40 cidades", pontua.

Por ser menos concentrado, o farma carioca acaba sendo mais aberto e flexível a inovações e negociações. A Venâncio, até bem pouco tempo atrás uma pequena rede concentrada na Tijuca, é um bom exemplo dessa capacidade. A rede avançou fortemente sobre outras regiões do estado e estabeleceu um modelo no qual a categoria de beleza desempenha o papel central, com muitas marcas e espaço para inovações e promoções exclusivas. Além disso, combinado a esse avanço a rede viu suas principais concorrentes locais patinarem por problemas de ordem administrativa e de gestão, como a Pacheco, ainda a maior do estado, que passou muito tempo se integrando à Drogaria São Paulo; ou as bandeiras Drogasmil e Farmalife, recentemente adquiridas pela Profarma. Com um cenário desses, a Venâncio consolidou sua posição como a farmácia do carioca por meio de suas quase 50 lojas, que avançam hoje para áreas mais distantes das zonas norte e oeste. Para Marins, da Ascoferj, o crescimento das grandes redes dentro do Rio tende a afastar as farmácias independentes cada vez mais para as periferias, onde elas podem trabalhar sem essa concorrência. Isso também ocorre com as comunidades, onde as grandes redes também não tem grande penetração. "Tem lojas em comunidades com faturamentos gigantescos", confirma o dirigente da associação.

O presidente da associação destaca que a relação do varejo farmacêutico local com a indústria cosmética local é de proximidade. "Eu percebo isso. As farmácias de porte médio e pequeno trabalham com marcas alternativas. Fazem mídia, promoções e parcerias. Isso abre oportunidades para as novas empresas crescerem também", diz. 

No varejo especializado, embora a pulverização continuará sendo a regra, não se vê no Rio um player local dominante no mercado, como tem sido a regra em outras capitais, e que esteja em condições de liderar um processo de consolidação e se destacar no canal, tal qual a Venâncio construiu no farma. No caso do varejo especializado, a rede RioBel é hoje a maior do estado em número de lojas, são 19 no total, 16 delas na região metropolitana. "Eles têm mérito, avançaram muito e conquistaram tudo na raça", diz Marcelo, da Yenzah. Mas nesse processo, o grupo ainda não conseguiu se estruturar para exercer essa posição de consolidadora. A RioBelleza, rede de perfumarias controlada pela Zamboni, uma das maiores distribuidoras de produtos de beleza do Brasil, poderia ter exercido esse papel, especialmente pela força do seu controlador. Mas a operação, de fato, nunca conseguiu decolar. Mais recentemente, as lojas têm passado por mudanças, especialmente no seu mix, com maior espaço para as grandes marcas com as quais a distribuidora trabalha no que pode representar uma nova visão para o negócio. 

Novata entre as redes cariocas, a Bela Ferraz inaugurou sua primeira loja em setembro de 2017 e já soma quatro unidades, inclusive uma antiga loja da RioBelleza. A bandeira é aposta de um grupo tradicional no varejo do Rio no segmento de beleza e oferece lojas bastante grandes, algo não muito comum no Rio, com muitas promotoras e um mix amplo de marcas. 

Já a bandeira baiana BEL Salvador tem feito um trabalho forte na cidade maravilhosa. Com um arrojado plano de expansão nacional, o Rio foi um das primeiras escolhas da rede. Hoje, a empresa opera três lojas na cidade, todas em shoppings, incluindo uma no Barra Shopping. "Existe um movimento de expansão grande da parte das redes de perfumaria e o Rio tem espaço para isso, já que você não teve iniciativas nesse sentido nascendo aqui. Por isso acho que tem espaço", acredita Felipe. O executivo da Lola também enxerga o avanço das lojas de departamento como Renner e Riachuelo como um movimento importante e aponta a Leader, bandeira de lojas de departamento local, como uma rede interessante para o setor. 

Comprometidas com o estado
O estado do Rio vive uma crise sem precedentes e que impacta diretamente em aspectos fundamentais do negócio (vide a próxima reportagem deste especial). Ainda assim, as empresas seguem firmes, fortes e investindo no estado.
A L'Oréal, maior operação de beleza do estado, inaugurou no segundo semestre de 2017 sua nova sede no País, um moderno edifício na revitalizada região do Porto Maravilha, e o seu Centro de P&D para América Latina, na Ilha do Fundão. "Não poderíamos escolher outro lugar no Brasil que não o Rio de Janeiro. Esta cidade é símbolo de diversidade e foi aqui que a L?Oréal implantou a sua primeira operação no Brasil, há quase 50 anos", disse An Verhulst-Santos, presidente da L'Oréal Brasil, durante a cerimônia de inauguração do prédio. Fruto de um investimento de R$ 160 milhões, o centro compõe um dos seis polos regionais de pesquisa mantidos pela companhia francesa em todo o mundo e deve reforçar a capacidade da operação brasileira de gerar inovações para o mercado local e, também, para o exterior. É verdade que a empresa fechou a sua antiga fábrica localizada na cidade do Rio. Mas, além de manter as operações industriais da Niely em Nova Iguaçu (incluindo a única fábrica de embalagens operada pela L'Oréal em todo o mundo), não fazia sentido para a gigante francesa manter sua antiga fábrica, relativamente pequena e sem espaço para crescer, sendo que a empresa tem outra planta industrial em São Paulo, que oferece todas as condições para concentrar a produção da companhia no País.

Por sua vez, a Pierre Fabre está rodando um plano de investimentos que vai aportar R$ 40 milhões até 2020 para reforçar as operações da companhia, cuja sede fica na cidade e a fábrica em Areal, onde era a sede da Darrow. A empresa já inaugurou uma nova linha para a produção de sabonetes em barra de padrão farmacêutico e tem realizado outros investimentos ali, com o objetivo de ampliar a capacidade e subir a régua da produção. Desde o ano passado, a companhia passou a fabricar no Brasil alguns produtos da marca Avéene. Para isso, a água termal é captada no lago termal da Avéene, acondicionada e transportada até aqui. "Com esses investimentos, vamos fazer cada vez mais amostras e trazer produtos mais competitivos e inovadores para o mercado brasileiro", conta Philippe. A fabricante de dermocosméticos também vai iniciar, em breve, a construção de um centro de inovação brasileiro na cidade do Rio, entre a fábrica e a sede da companhia, na Barra da Tijuca. Será o primeiro centro da empresa na América Latina e, a ambição, é poder levar inovações geradas aqui, para o mercado brasileiro, a outros cantos do mundo. "Temos que entrar no TOP 5 da Pierre Fabre. E temos todas as condições para isso", emenda o diretor da empresa francesa. 

Entre as companhias locais, o comprometimento é ainda maior e diz respeito ao próprio vínculo com o estado. A Yenzah inaugurou recentemente sua primeira fábrica, e ela fica na cidade, o que garante a proximidade e a agilidade para resolver qualquer situação que demande a presença do comando da empresa, situado no bairro do Botafogo.

A Lola também investiu para ampliar significativamente sua capacidade industrial, com investimentos em maquinários que melhoraram a produtividade e têm permitido à empresa abarcar mais e novas tecnologias em suas linhas. "A casa da Lola é o Rio. Não quer dizer que a gente não possa ter centros de distribuição em outros lugares, ou trabalhar com um terceirista de outro estado. Mas a base da Lola deixar de ser o Rio de Janeiro, isso não está em discussão de jeito nenhum", conclui Felipe. 

Compartilhe

Comentários ()

© 2012 • Cosmética News. Todos os Direitos Reservados • Desenvolvido por Index Software

Voltar ao topo