Sem cara feia

Sem cara feia
Em meio ao pior momento da indústria de beleza brasileira em toda a história, o País vê um novo ciclo de investimentos realizado pelas empresas de matérias-primas, que querem estar bem posicionadas para aproveitar a retomada do crescimento do mercado local  



O Brasil, definitivamente, ainda não está bonito na foto. O País ainda está numa recessão - o triênio entre 2014 e 2016 foi o pior da história - e os sinais de melhora ainda são um tanto quanto insconsistentes. A situação da indústria de beleza também é de pouca beleza. Historicamente resiliente, a indústria acumula quase 15% de queda nos últimos dois anos. Trata-se de um quadro bem diferente do período entre 2009 e 2012, quando a crise mundial foi sentida rapidamente no Brasil, que acabou se valendo de uma política anticíclica que perduraria mais do que o necessário e desaguaria na atual crise. Independentemente disso, aqueles foram anos de grande bonança para o País e para a indústria de beleza. Para atender ao crescimento explosivo de um dos maiores mercados de beleza do mundo, as grandes casas de fragrâncias multinacionais investiram centenas de milhões de reais na construção de novos centros criativos por aqui. Esses investimentos foram realizados quando a economia do país nacional estava na crista da onda e, via de regra, ainda conseguiram se valer desse rápido crescimento para rentabilizar os investimentos realizados por aqui.

Alguns fornecedores de Ativos e Ingredientes também fizeram investimentos em novas plantas no Brasil nos anos de bonança. Mas, ao contrário do que aconteceu no segmento de fragrâncias, em que onde todas as quatro grandes fornecedoras do mercado realizaram seus investimentos no segmento de Ativos e Ingredientes, o movimento foi de inciativas mais isoladas, até porque trata-se de um negócio que não tem o mesmo grau de concentração visto no segmento de fragrâncias.

Ainda assim, é um movimento bastante considerável, especialmente porque estão sendo realizados no pior momento da economia brasileiro, e da própria indústria cosmética, da história recente.

 Nos últimos dois anos, as multinacionais Clariant, Symrise, DSM e Lubrizol, além da distribuidora brasileira Cosmotec , - para ficar apenas nos investimentos mais significativos -, apresentaram o fruto dos seus novos investimentos no Brasil. E a pergunta é, por que realizar, agora, esses investimentos? Como nenhuma dessas empresas (e nesse ponto podemos colocar a mão no fogo) é de queimar dinheiro, trata-se de um claro comprometimento com o crescimento do País no longo prazo. E, nesse cenário, os investimentos são fundamentais para que as engrenagens sigam bem lubrificadas. "Quem investe no Brasil sabe que enfrentará alguma flutuação. Pensar que não há flutuação na América Latina é ingenuidade. Vamos ter crescimento em alguns momentos, custos em outros, mas dentro do contexto achamos e continuamos achando que este é um lugar para estar e é um lugar onde continuaremos a estar", contextualiza Manlio Galloti, vice-presidente da empresa química suíça Clariant na América Latina.

Históricamente, o Brasil é um país difícil de prever. Não foram poucas as vezes em que, num período relativamente curto de tempo, um quadro negativo no mercado de beleza rapidamente se converteu em um movimento de crescimento acelerado. E, nessas horas, quem não está com a estrutura tinindo, acaba perdendo o boom do mercado e ficando para trás. Trata-se de uma realidade aplicável a vários outros segmentos da economia. Quem esperar por um novo período de bonança para realizar seus investimentos, corre o risco de só estar preparado para atender ao mercado quando o mercado não precisar mais dele.

Não é porque estão investindo que as empresas não reconhecem a gravidade do momento. O executivo da Clariant admite que este é um momento de reflexão tanto no Brasil quanto na América Latina. "O que as empresas têm de entender é como navegar nessa complexidade da América Latina e, para quem sabe navegar, é uma grande oportunidade. São regras do jogo diferentes. Você tem de ver como usa as regras do jogo da maneira mais proveitosa", resume Manlio.

Com sua experiência profissional de quase quatro décadas atendendo ao mercado de beleza, Eder Ramos, presidente Global da área de Ingredientes Cosméticos da empresa alemã Symrise, relembra todas as crises e dificuldades econômicas pelas quais passou e acredita que, sem os pesados investimentos realizados recentemente, a Symrise possivelmente não estaria na posição em que se encontra atualmente. "Não vou falar que é uma zona de conforto... falando só de Brasil. Estamos passando pela crise, eu diria, melhor do que muitas empresas do mercado", revela.

Novo polo de inovação
Mais do que investir para aumentar a capacidade de produção industrial, o que guia a maior parte dos investimentos recentes das companhias de Ativos e Ingredientes por aqui é o aumento da capacidade de atender às demandas dos clientes por mais testes e aplicações, e, principalmente, permitir novas possibilidades de desenvolvimento em diferentes categorias. A "inovação", especialmente no desenvolvimento de novas formulações e aplicações, é o que torna esses investimentos ainda mais importantes para a indústria local.

E quando se pensa no que os laboratórios de inovação podem desenvolver de melhor do Brasil para o mundo, a categoria de produtos para os cabelos é, naturalmente, um destaque. O Brasil ainda é um dos maiores mercado do mundo para a categoria. Soma-se a isso o fato de contarmos por aqui com uma enorme variedade de tipos de cabelos. A união desses fatores faz do Brasil um foco de inovação nesta categoria. Tanto que a Symrise estabeleceu o seu Centro Global de Inovação para Haircare aqui no Brasil, dentro do Centro Criativo da empresa em Cotia (SP). A diretora mundial de Negócios desta categoria, a executiva Márcia de Paula, também está lotada no País.

Eder Ramos destaca o pioneirismo da Symrise em colocar um Centro Global voltado aos Cabelos no Brasil, algo que, segundo ele, ninguém teria feito à época, mas que se mostrou bastante acertado. "Todo o investimento que fizemos na área de inovação, no centro de expertise da Granja Viana e no Global Haircare Center - além da Symrise Amazon, uma planta dedicada ao processamento de ingredientes, óleos e extratos da região amazônica, dentro do Ecoparque, um complexo industrial na cidade de Benevides (PA) - colocou a Symrise num outro patamar." E segundo Eder, os planos são de manter os investimentos e que os planos futuros estarão concentrados na área de Inovação. "Recentemente, nessa área, investimos em dois laboratórios de tecnologia, um para novas moléculas olfativas vindas do bioma brasileiro e outro para analisar ingredientes desses produtos naturais que possam ser utilizados na área cosmética. Novos investimentos na Symrise Amazon também estão nos planos", pontua o presidente da Symrise Cosmetic Ingredients. Ele reforça que além de todo esse investimento na área de inovação, trouxemos muitos talentos para a empresa. ?Houve muitas contratações no Brasil e América Latina, que propiciaram uma absorção de mão de obra especializada no mercado. É um fator importante, pois não estamos aqui somente para gerar riqueza para os acionistas, mas também para a sociedade e uma forma de fazer isso é gerar empregos. Não só emprego na área fabril, mas também de mão de obra especializada, o que é muito importante?, pontua o executivo brasileiro.

Em fevereiro deste ano, a suíça Clariant inaugurou em São Paulo o Global Competence Center Haircare, seu primeiro centro global de pesquisa e desenvolvimento de ingredientes para tratamentos capilares. Lá a empresa espera desenvolver soluções inovadoras para clientes de todo o mundo. O centro trabalhará em estreita colaboração com a rede mundial de inovação da companhia, principalmente o centro de inovação da empresa, em Frankfurt, na Alemanha.
De acordo com Manlio, da Clarianta escolha do Brasil como base para o investimento foi estratégica. "O Brasil tinha várias características que nos interessavam. A diversidade de (tipos) de cabelos, a alta frequência de uso e, especialmente, a tendência de as pessoas promoverem inovação. O consumidor brasileiro está buscando inovação e define tendências", considera.

A categoria de produtos para os cabelos também foi um dos principais motivadores para que a DSM - empresa holandesa baseada na ciência com vendas de quase 8 bilhões de euros ao ano - investisse no Brasil. No final de março, a companhia inaugurou seu novo Centro de Inovação para a área de Personal Care na América Latina. Situado em Campinas (SP), o novo laboratório funciona como um espaço para desenvolvimento de soluções inovadoras e customizadas para as mais variadas necessidades das consumidoras da região, caracterizadas pela diversidade de peles e cabelos, além da questão da proteção solar. A diretora de Negócios de Personal Care da DSM para a América Latina, Gisele Souza, explica que este novo Centro de Inovação - que consumiu um milhão de euros em investimentos - permitirá que a empresa entenda com mais facilidade e assertividade a questão da diversidade que o País e a região oferecem em termos de cuidados com os cabelos, inclusive utilizando o Brasil como inspiração para o desenvolvimento de produtos globais. "Foi-se o momento em que o Brasil seguia tendências. Estamos num momento de criar tendências e, por ser líder no mercado de cabelos e ter essa diversidade imensa, seja em cabelos ou em pele, é muito natural que a criação de tendências passe pelo Brasil. Isso não é surpresa", acredita Gisele.

A executiva diz que a visão da DSM é a de que, como o Brasil está entre os primeiros mercados cosméticos do mundo, a companhia não pode ficar de fora, mesmo com esta crise que, de acordo com ela, causou uma retração no mercado. "Temos uma visão de longo prazo e o mercado vai voltar a crescer. A DSM não tinha nenhuma pretensão de ficar fora disso. É uma prova do nosso comprometimento com o mercado brasileiro", situa a diretora.
Ao estabelecer um centro de inovação no Brasil, a DSM espera alcançar uma proximidade maior com o cliente e adaptar as tecnologias que a empresa já oferece às necessidade dos consumidores e dos clientes latino-americanos. "Como a gente traduz a necessidade da beleza do homem e da mulher latinos? Como que a gente traduz as diferenças de comportamento do consumidor? Porque essas são as necessidades dos nossos clientes. E para levar essa solução até o cliente, a gente precisa de uma coisa aqui, com ele. Agora estaremos juntos com eles discutindo com ele as necessidades daqui da nossa terra de forma muito mais fácil e focada", complementa.

Crescer demanda investimentos
Quase sempre também, a equação: "novas estruturas = novas possibilidades" é outro ponto positivo para quem investe, permitindo a companhia se aventurar em categorias com as quais não atuava e também até aumentar ou melhorar sua produção.

No ano em que completa três décadas de atuação no mercado, a Cosmotec, uma das principais empresas distribuidoras de Ativos e Ingredientes para a indústria cosmética no Brasil, inaugurou em março, em São Paulo, um novo Laboratório de Desenvolvimento e Aplicação (foto). A estrutura anterior do laboratório já permitia à empresa desenvolver centenas de opções de fórmulas para as categorias Pele, Cabelo e Maquiagem. Mas, agora, com os investimentos realizados na nova estrutura, além de agregar mais tecnologia e inovação à companhia, também ampliará as possibilidades na elaboração de soluções completas para os clientes, além de promover maior integração da equipe. Segundo a Cosmotec, a expansão permite ainda a disposição de novos equipamentos para formular e avaliar a performance dos produtos. Na visão de Ana Rezende, diretora de Negócios da Cosmotec, um laboratório bem equipado é determinante para o sucesso das parcerias e projetos, e permite avaliar ainda melhor os ingredientes para atender às necessidades específicas do mercado cosmético brasileiro.

 Evolução dos negócios e novas possibilidades são dois aspectos que levaram a Lubrizol, companhia norte-americana que atua na área química, a realizar  investimentos consideráveis em seu negócio recentemente. Esses recursos vêm sendo aplicados não apenas em infraestruturas, mas também na contratação de profissionais especializados para os mais diferentes segmentos. Um dos principais investimentos em infraestrutura foi realizado em agosto de 2015, quando foi inaugurada a fábrica de Belford Roxo (RJ), um empreendimento de US$ 20 milhões que, entre diversas atribuições, permitiu a companhia produzir localmente parte importante do seu portfólio. Além disso, a Lubrizol aprimorou suas estruturas de laboratórios de aplicação e também apresentou um novo armazém próprio para estocar matérias-primas e ingredientes para a área de Personal Care, que está localizado na unidade da empresa, em Paulínia, interior de São Paulo. Este armazém oferece como ganho principal uma maior capacidade de resposta para atender aos clientes num mercado mais imprevisível e dinâmico. A empresa também trabalha atualmente na nacionalização de tecnologia para produzir localmente, também na unidade de Paulínia, mais alguns produtos do seu portfólio que atende ao mercado de higiene e beleza.

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