Momentos de decisão

Momentos de decisão
O varejo especializado de beleza pode estar vivendo uma era em que as perfumarias precisam decidir sobre quais serão os seus rumos e seus papéis para a construção do futuro do canal


Varejistas com lojas bem montadas e com layouts modernos, planos de expansão ousados, concorrência acirrada, território para aquisições e para a entrada de fundos de investimentos. Até bem pouco tempo atrás, ao ler este descritivo de fatores, possivelmente você acharia que estaríamos tratando do canal Farma. Mas não. Tudo isso já faz parte do contexto das perfumarias nos dias atuais. O varejo especializado de beleza brasileiro vive um momento chave em termos de desenvolvimento. A Atualidade Cosmética acompanha o andamento deste canal há uma boa porção de anos e podemos dizer, seguramente, que trata-se de um cenário bastante particular o que vemos hoje, algo que jamais foi visto entre as protagonistas, ou seja, as perfumarias. 

Mas este panorama pode estar representando também um marco decisivo para as redes definirem quais são de fato suas estratégias para daqui pra frente. Temos sintomas bem evidentes de que o canal, enfim, pode estar passando pelo seu processo de consolidação. Se compararmos com o que viveram os canais Farma e Alimentar em termos de consolidação, o varejo especializado de beleza está bastante atrasado. Mas isso não é demérito algum, afinal, cada segmento tem características bem particulares, que foram sendo moldadas ao longo de suas trajetórias.

Depois de um bom tempo, podemos finalmente dizer que existem hoje grandes redes de perfumarias, algumas delas até mesmo com atuação nacional. São players com até três dezenas - não mais do que isso - de lojas bem montadas e com um bom ritmo de expansão praticado nos últimos anos, além de possuir potencial e planos para crescer ainda mais. Entretanto, a amplitude do termo "grande rede" não se compara quando equiparado com os demais segmentos do varejo. Afinal, ainda está distante de termos uma perfumaria com centenas (algumas com mais de 1.000) de lojas, como existe no Farma e no Alimentar. Neste ponto, ainda para efeitos comparativos, devemos considerar que o tamanho médio de uma perfumaria é maior do que o de uma drogaria. 

Só que teremos um ambiente dentro do Canal Perfumarias que caminhará basicamente para uma certa divisão. De um lado, estarão as redes que estão priorizando o crescimento, com lojas bem desenvolvidas, fazendo questão de investir em expansão e com planos traçados para os próximos anos neste sentido. Estes têm toda a pinta de exercerem o papel de consolidadores do canal. Do outro lado, perfumarias chamadas de "loja de bairro", aquelas com uma unidade apenas, que podem até ser bem montadas e organizadas, que são administradas por um proprietário que não tem como intuito principal crescer mais do que aquilo ou de ir para uma segunda unidade. É certo que este tipo de pontos de venda sempre existirá no canal, assim como acontece com as inúmeras farmácias independentes que existem por aí. De acordo com a pesquisa da Euromonitor International, encomendada pela Beauty Fair para 2018, as perfumarias independentes são maioria entre as cerca de 19 mil (2017) unidades existentes no País.

A grande questão é prever o que acontecerá com os varejistas que estão exatamente no meio desses dois grupos. E não são poucos as redes que estão nessa condição. Estamos falando aqui de perfumarias com mais de uma loja, o que já as qualifica como uma rede, mas que não têm modelos de loja e de negócio bem definidos. Para essas, a expansão não é uma prioridade, basicamente por não contarem com capacidade financeira para tal. Por isso, centram seus recursos em buscar o melhor preço em negociações comerciais ou até mesmo em melhorar quesitos de suas lojas. Caso estejam enfrentando algum tipo de problema de gestão, a caminhada tende a ficar ainda mais difícil para estes players daqui em diante. Além disso, eles podem de alguma maneira se tornar alvos de aquisição de alguma rede maior que está em busca de capilaridade.

Mariella Scuro, diretora de Marketing da Danny Cosméticos, concorda que grande parte das perfumarias brasileiras possuem gestão familiar e que de fato elas estão divididas em perfumarias de bairro, as que se tornaram uma rede e as que criaram um modelo de corporação. "Muitas dessas perfumarias já estão entrando na gestão da segunda geração da família. Diante disso e tendo em vista que o mercado da beleza do Brasil continua crescendo, acredito que o processo de aquisição ou separação das perfumarias é algo que acontecerá nos próximos anos", corrobora ela. 

Um convite a fusões ou aquisições?
Analisando as possibilidades reais de acontecerem processos de fusão e aquisição dentro do varejo especializado de beleza brasileiro, vemos redes que carregam consigo características para serem consideradas alvos em algum momento. Porém, sabemos que este não é um processo simples e como historicamente não aconteceram negociações como essa, fica difícil prever que possa vir acontecer daqui para frente. "Acho que ainda vai ter confusão, no bom sentido, de fusão, gente comprando gente nos próximos três anos", acredita Cesar Tsukuda, diretor-superintendente da Beauty Fair. "Acredito que as lojas individuais são de difícil aquisição de um grande grupo. Geralmente, as grandes empresas do setor não buscam esse tipo de estabelecimento. Nesses casos, o que chama a atenção dos compradores são os ativos, os locais em que elas estão localizadas, mirando a clientela", pondera Viktor Andrade, sócio-líder de Fusões e Aquisições da EY Brasil.

Recentemente, o canal viu o surgimento de uma rede que podemos dizer que já nasceu grande. A Soneda Perfumaria chegou ao mercado inaugurando de cara 27 lojas pela capital de São Paulo e cidades do Grande ABC, Litoral e Interior. Quem está à frente do negócio é a família Kamachi, tradicional no canal por administrar 16 unidades da rede Sumirê (que funciona como uma espécie de associativismo entre um grupo de pessoas próximas) até março deste ano, quando assumiu o controle da Perfumaria 2000, rede que atuava com dez lojas pela Grande São Paulo.

Apesar de o surgimento da Soneda contar com aspectos peculiares, não deixou de ser um negócio que teve aquisição envolvida no meio. Do momento em que adquiriu a Perfumaria 2000 até o anúncio do lançamento da nova marca, o grupo mudou a gestão dos negócios da rede adquirida, dando prioridade aos produtos de beleza. "Mudamos a estratégia com o objetivo de igualar as operações. Em cinco meses, aumentamos o faturamento em 20%", recorda Minoru Kamachi, diretor-administrativo da Soneda Perfumaria. Mesmo com uma estrutura que já a qualifica como uma das grandes redes brasileiras, o dirigente garante que não tem a pretensão de serem reconhecidos como a maior rede de perfumaria do Brasil. "Queremos sim é sermos reconhecidos como os melhores naquilo que estamos nos propondo, que é levar um novo jeito de embelezar vidas", contorna.

Minoru não considera impossível haver outros movimentos de aquisição, como o da Perfumaria 2000, entre as perfumarias, porém acha pouco provável que ocorram pelo fato de a maioria de as redes que compõem o canal serem negócios familiares. "E todos trabalham na operação, isto é, foram pensadas prevendo a sucessão familiar", crê ele. Este é ponto importante a ser considerado quando analisarmos a questão de possíveis aquisições entre redes de perfumarias. Cesar Tsukuda diz que há diversas redes que estão "com gás" por já terem passado por processos de sucessão, o que fazem delas alvos um pouco mais difíceis de serem adquiridas. Porém, não descarta negociações neste sentido. Para ele, há pequenas e boas lojas que podem ser compradas dentro de um futuro próximo. "Em algum momento, essas médias redes terão de se falar, porque vai ser uma questão de sobrevivência, de escala. E a minha aposta também é que, da mesma forma que você tem o pessoal de outros estados entrando em São Paulo, com toda a certeza nos próximos dois ou três anos o pessoal de São Paulo vai romper fronteiras", vislumbra o diretor-superintendente da Beauty Fair. 

A conta chega
Um outro ponto que pode favorecer um eventual cenário de fusões e aquisições entre as perfumarias é fato de que, para aqueles que estão abrindo lojas em um ritmo constante, chega um momento em que, digamos, a conta chega. Isso está relacionado ao ponto em que a operação precisa começar a dar retorno. "Tenho o sentimento de que algumas perfumarias ainda não têm essa estrutura totalmente pronta. Isso não quer dizer que necessariamente quebrarão, mas elas poderão fazer uma lição de casa rápida nos próximos meses e anos para poder sustentar ou continuar sustentando essa base de crescimento", situa Cesar, que diz que hoje há locais, como São Paulo, por exemplo, em que talvez seja mais barato comprar do que abrir. "Obviamente que isso dependendo da região, etc. Mas acho que, como regra, São Paulo está chegando muito perto disso. É como o Minoru fez (com a Soneda), com certeza ele gastaria muito mais para abrir a mesma quantidade de lojas e ter o mesmo faturamento. Para ele atingir o faturamento que ele 'comprou' abrindo uma quantidade x de lojas, ele demoraria muito mais. Esta é uma equação interessante", compara.

Apesar de o varejo especializado de beleza brasileiro ter avançado consideravelmente na questão da informalidade, ele ainda está distante de um cenário ideal de profissionalização. E justamente o atraso nesta questão é apontado por Marcos Hirai, sócio-diretor da GS&BGH Retail Real Estate e da Omnibox - lojas autônomas, como o principal dificultador para haver fusões e aquisições neste setor. Ele destaca que quem compra empresas geralmente são companhias consideradas grandes e formais. "Quando estas vão buscar informação numa rede que mal sabe quanto fatura ou se toda a lógica financeira dela está baseada na informalidade, é muito difícil um varejista ou um grande fundo fazer aquisição. Agora, por incrível que pareça, não é um mercado saturado. É um mercado que ainda tem muitas oportunidades, então, quem tem dinheiro e quer investir neste mercado, ainda tem oportunidades não cobertas por ninguém", contorna o especialista, citando as oportunidades existentes atualmente para perfumarias em shoppings centers também.

"Temos como visão ser a maior rede de lojas de cosméticos do País até 2021". Este é o lema que move a Leo Cosméticos, rede paranaense que possui 13 lojas atualmente, mas que pretende contar com 50 daqui três anos. Por enquanto, as atuais unidades ainda estão situadas em cidades paranaenses, porém dirigentes da rede já admitiram que estão buscando entender como funcionam as divisas de estados mais próximos para, quem sabe, ampliar seu mapa de expansão. Não há dúvidas que a Leo Cosméticos é uma das redes que estão no eventual grupo de "consolidadores", por conta de seu plano de expansão agressivo, com modelos de negócios e de lojas bem definidos. 

Além disso, a rede paranaense também acredita que o ambiente no canal nunca foi tão propício para fusões e aquisições. "Elas são inevitáveis quando se propõe a avançar. Expandir significa estar em novos pontos com culturas e dinâmicas nem sempre semelhantes as que se tem referência. É necessário trazer ao mercado inovação na dinâmica comercial, apresentação e forma de ação, porém sempre adaptada ao ambiente que se instala. O mercado é como a natureza, o arquiteto que planeja criar algo que perdure deve respeitar o clima, os ventos e o terreno do local", compara Alicio Maffra Junior, diretor de Vendas e Marketing da Leo Cosméticos. A rede tem ciência de que, mesmo mantendo um bom ritmo de abertura de lojas e com elas apresentando bons resultados, chegará um momento em que terão de "puxar o freio de mão" ou buscar um aporte financeiro para seguir, talvez por meio de fundos de investimentos. "Quanto a fundos de investimentos, os mesmos estão positivamente muito curiosos sobre nosso canal em geral e isso sempre rende bons frutos", avalia Alicio.

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