Momentos de decisão (continuação)

Espaço para fundos
Nesse possível cenário de separação que se desenha entre as Perfumarias, um movimento pode ser bastante decisivo: a entrada (ou não) de fundos de investimentos de maneira mais incisiva no canal. Há pouco tempo, tivemos uma atividade neste sentido, que foi a venda de uma participação ao fundo de investimentos Vinci Partners por parte da Mundo do Cabeleireiro, rede pernambucana de perfumarias com quase 30 lojas e que, ao lado da baiana Bel Salvador, representam os varejistas nordestinos que já marcam presença em São Paulo. Ainda na região, há de se destacar o trabalho da rede cearense IAP! em termos de expansão. As três redes são as que mais têm se destacado na questão da expansão para além de seus estados de origem.

O caso da Mundo do Cabeleireiro é marcante para este canal, afinal, foi a primeira rede do varejo especializado de beleza a fechar negócio com um fundo de investimentos. Para ingressar e se firmar em território paulista, a rede pernambucana tem explorado os shoppings centers (já são seis até então). Com o aporte do fundo, a varejista deve manter um ritmo de expansão constante, possivelmente seguindo pelos shoppings e com as lojas com um layout que privilegia a navegação pelas prateleiras, além de possuir um equilíbrio entre o mix de produtos, preços e serviços.

Marcos Hirai, da GS&BGH Retail Real Estate, acredita que, a partir desta negociação que ocorreu com a Mundo do Cabeleireiro, começarão a entrar outros fundos no varejo multimarca de cosméticos. "Acredito que essa seja uma tendência para os próximos três ou quatro anos, e isso muda completamente o mindset de gestão. Aquela rede que ficava concentrada num bairro começa a abrir lojas no estado e até interestadual. Então, começam a surgir de fato, impulsionadas pelos fundos de investimentos, as primeiras redes nacionais de varejo multimarcas", crê o especialista.

No que focar
Seja qual for o caminho para o qual o varejo especializado de beleza siga, ele exigirá atenção de todos os varejistas, independentemente do tamanho. Segundo Marcos Hirai, para as redes já mais estruturadas, com potencial de serem consideradas consolidadoras, a palavra-chave é profissionalização. "E quando falamos em profissionalizar, a gente fala em melhorar treinamento, atualizar lojas, melhorar a gestão de estoque, ou seja, é um choque de gestão mesmo para começar a não ficar uma diferença muito grande do que é uma loja multimarcas presente em shoppings de uma loja multimarca presente em rua. O que vai acontecer é que a régua ficou lá em cima agora. Então, para ser competitivo neste mercado, vai ter que elevar essa régua lá para cima", observa o especialista, destacando que já há varejistas cuidando desses quesitos.

Agora, para aquelas redes que estão situadas entre perfumarias de bairro e essas maiores, a tática de "cuidar bem do quintal" pode ser decisiva para elas. O exemplo mais forte neste sentido vem de São José do Rio Preto, com a Lojas Lívia Cosméticos. Atualmente, trata-se de uma rede com bastante destaque nacionalmente, alcançado com suas dez lojas, porém, todas elas na cidade do interior de São Paulo. A empresa com 40 anos de existência sempre deixou muito clara a sua estratégia de dominar seu território. Fatalmente, um dia, a rede terá de se expandir para além das fronteiras de seu município base. Porém, por enquanto, ainda enxerga potencial para expansão dentro de sua cidade. "No caso da Lojas Lívia, ela está protegendo o mercado dela. É muito importante que, quando começa a existir concorrência, você proteja este mercado onde atuou a vida inteira", explica Marcos Hirai.

Não de maneira tão ampla quanto a Lojas Lívia, a Spasso Cosméticos fez algo similar em sua cidade natal, Campinas, também interior de São Paulo, onde tem mais de dez lojas em locais estratégicos. Só que, hoje, já se expandiu por mais nove cidades da região e também na Grande São Paulo. "A Spasso abriu bastante lojas nos últimos tempos, mas ela de certa forma também abriu bastante lojas em Campinas, para se proteger e para que seus concorrentes não tenham espaço", crê Hirai. "A Spasso cuidou sim do seu 'quintal', porém existem muitas coisas a serem realizadas, outros pontos na cidade a serem estudados e explorados. Mas, cautela, prudência, razão e profissionalismo devem estar acima de quaisquer decisão precipitada. A ocupação de espaços de maneira inadequada pode colocar em risco projetos e saúde financeira", prega José Roberto Munhoz, diretor Comercial da Spasso Cosméticos.

Atenção das redes
Se a palavra-chave é profissionalização, como bem disse Marcos Hirai, as redes que estão buscando se firmar em suas condições sabem o que cerca suas pretensões. Alicio Maffra Junior, da Leo Cosméticos, acredita que veremos nos próximos anos o avanço das grandes redes que estão se movendo rápido não só geograficamente, mas também em forte investimento em capital humano de alta competência e tecnologia de ponta pra suportar a robustez, a velocidade e o controle que esse passo demanda. "Os maiores desafios são aqueles que não podemos resolvê-los por nós mesmos e por isso decidimos não nos deixarmos deter tropeçando em conjecturas, entretanto eles são reais como por exemplo questões da área econômica", lamenta o dirigente.

O investimento em profissionais mais capacitados é uma das ações mais fundamentais neste processo, principalmente para aquelas redes que estão visando crescimentos mais robustos e também para lidar com a concorrência. No caso da Soneda Perfumaria, a busca por esta mão de obra mais especializada tem sido feita internamente num primeiro momento. "Com certeza essa melhor estruturação é fundamental para podermos ter um crescimento sólido. Por sermos uma empresa familiar, estamos buscando os talentos necessários primeiro dentro de casa, mas conscientes de que, se não o tivermos, teremos de buscar profissionais que entendam nosso propósito e que estejam alinhados com nossos valores", considera Minoru Kamachi.

"Eu não acredito em sucesso e continuidade sem profissionalismo. Quem não investir no ?ser humano? e ter processos de gestão eficazes, com certeza não conseguirá se manter em um mercado tão concorrido, mesmo porque, a maioria das Perfumarias virarão seus canhões para a prática de ?atacarejo? de cosméticos, onde se trabalha muito mais preços do que serviços e atendimento qualificado", opina José Roberto Munhoz, da Spasso Cosméticos.

Para a direção da Danny Cosméticos, existe um conjunto de ações que precisam estar muito bem alinhadas para permitir o crescimento da organização. "Entre essas ações, estão: infraestrutura logística, um bom software de ERP, inteligência tecnológica dentro das lojas, gestão operacional com processos bem definidos, clareza na missão e na visão da organização e uma constância na gestão e treinamento de capacitação da equipe", avalia Mariella Scuro, que acrescenta ainda que ter pessoas especializadas em cada departamento da organização é fundamental para garantir o crescimento da empresa.

O alinhamento entre os canais também deve ser fator decisivo daqui para frente. E a rede de perfumarias de Americana tem isso em mente. "Para a Danny Cosméticos, investir nos multicanais deixou de ser apenas uma vontade de se diferenciar, mas se tornou essencial para conseguir atender aos diversos clientes existentes no mercado. O e-commerce da Danny Cosméticos é a loja que registra o maior crescimento todos os meses, desde o início do ano. Além de apresentar bons números, ela também traz clientes para nossas lojas físicas através da opção de ?Compre e Retire? da loja online", pondera a dirigente.

Cesar Tsukuda opina que este cuidado com o canal digital tem muito a ver com a atuação da segunda geração dentro da direção das perfumarias. "Quem tem uma segunda geração forte, irá se movimentar digitalmente. As perfumarias que não têm, vão ficar para trás nesse aspecto, o que pode condená-las num futuro não tão distante", crê ele. "Não acho necessariamente que as perfumarias tenham de ter e-commerces, ou estruturas totalmente feitas, mas isso não quer dizer que elas não tenham de ser digitais, do ponto de vista de relações com o cliente, de mídia, comunicação. Ser digital já não é mais uma escolha, é uma questão de realidade. Pode escolher de ter o e-commerce ou não, por uma questão econômica, prioridade, estrutura, entre outras razões. Agora, deixar de ser digital, não há como. É preciso encontrar uma forma de cultura digital. Ou é preciso ter um cara de mente muito aberta ou ter uma segunda geração chegando", conclui o diretor-superintendente da Beauty Fair.

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